segunda-feira, 23 de março de 2026

Seijun Suzuki - Um ponto isolado no espaço, sem direção

Artigo inicialmente publicado em francês na Critikat. Devido ao rigor da revista, várias passagens foram suprimidas durante a edição, então decidi publicar aqui o artigo inicial na sua integralidade, com suas eventuais irregularidades e incoerências. O artigo comenta uma retrospectiva do cinema de Seijun Suzuki que ocorre em Paris nessa primavera, centrada no fim do seu período contratual com a Nikkatsu, durante o qual ele realizou quarenta filmes em doze anos. A programação reúne nove dos treze últimos títulos dessa fase: A Juventude da Besta, As Flores e as Ondas Violentas, Portal da Carne, História de uma ProstitutaA Vida de um TatuadoCarmen de Kawachi, A Elegia da Luta, Tóquio Violenta e A Marca do Assassino.

É um célebre paradoxo a Nikkatsu, um dos estúdios mais comerciais do Japão, ter abrigado um dos cineastas mais indisciplinados da Nuberu Bagu (a Nouvelle Vague japonesa). Especializado na produção em série de filmes de yakuza e melodramas populares, o estúdio ofereceu a Seijun Suzuki a estrutura para suas experimentações formais com as quais, combinando uma estilização barroca a uma visão de mundo desencantada, seus filmes acabaram sendo julgados incompreensíveis (Suzuki resumiria mais tarde a situação com uma ironia célebre: “Faço filmes que não fazem sentido algum e que não dão nenhum dinheiro”).

Seu cinema impressiona imediatamente por sua exuberância visual, frequentemente composta de cenários saturados de cores irreais nos quais os personagens se tornam praticamente motifs plásticos; mas sua estranheza se deve sobretudo a um modernismo que privilegia a transparência do artifício ao realismo ou a verossimilhança. As intrigas de seus filmes funcionam mais como pretextos em torno dos quais se desdobram blocos visuais e rítmicos relativamente autônomos, organizados por ecos plásticos, padrões cromáticos ou gestos coreográficos. Uma descrição do tipo poderia sugerir um surrealista entregue ao arbítrio, mas seria enganoso reduzir Suzuki a um simples anarquista abstrato: a singularidade de sua obra reside, ao contrário, num extremo rigor formal. Como formulou o crítico Shigehiko Hasumi, Suzuki desenvolve uma “estética da demolição”, um modernismo em que a forma clássica do cinema de estúdio não é abandonada, mas implodida, reorganizada a partir de seus próprios materiais.

Através dos nove filmes selecionados, desenha-se um movimento em direção a um lirismo cada vez mais convulsivo que tende para uma forma de niilismo estético. Esse niilismo deve ser entendido em dois sentidos: 1) como uma visão de mundo em que os objetos e as ações só têm sentido enquanto fenômenos materiais, e 2) como um niilismo das próprias imagens, progressivamente saturadas de artifícios até se esvaziarem de sua função significante. O pessimismo do cineasta contamina progressivamente a forma dos seus filmes, fissurando a narração sob o efeito de artifícios (digressões antinarrativas, arroubos antidiegéticos, repetições e desvios que interrompem a progressão dramática, etc.) que vai liberando as cenas de uma lógica puramente causal, deixando apenas a mecânica interna da mise en scène ditar as regras da cena - a particularidade de Suzuki é que, mesmo que a sua inventividade formal não seja exatamente abstrata por ser sempre estar rigorosamente alicerçada nos elementos visíveis da mise en scène, com frequência esses elementos são compreendidos no seu sentido material, e não hermenêutico. Citando novamente Hasumi: “Seijun Suzuki se mantém sobre um único ponto no espaço: um ponto sem tempo, sem espessura, sem extensão, onde as coisas e as cores oscilam e se balançam sem direção.”

Em busca de um estilo

A trajetória de Suzuki rumo a um cinema mais livre não segue uma progressão linear, mas esse movimento encontra seu germe em A Juventude da Besta, onde a mise en scène deixa entrever uma corrosão interna do filme de yakuza. A intriga do filme é relativamente rotineira (embora um pouco opaca e convoluta), mas a lógica dramática é suspensa em várias ocasiões por interlúdios quase autônomos: de um lado, uma cena de clube é filmada através de um vidro sem que se ouça o menor som, a ação se transforma numa estranha pantomima silenciosa até que uma funcionária liga o som ao abrir as válvulas da mesa de mixagem; do outro, uma sequência de punição infligida a uma prostituta é acompanhada por uma tempestade de areia totalmente incongruente que se desencadeia atrás da janela. Essas irrupções estilísticas fissuram o universo realista do relato e já anunciam a lógica mais radical de seus filmes posteriores. A intriga evoca a de Yojimbo, de Akira Kurosawa, mas no cinema de Suzuki nenhuma transcendência moral subsiste: o mundo é uniformemente corrompido e até o herói não passa de um predador entre outros. Podemos aqui arriscar uma hipótese sobre o conjunto de sua obra: a supremacia aparente do estilo decorre de um olhar profundamente pessimista sobre o mundo, concebido como um universo em que a moral desapareceu, e a violência se tornou a única mediação entre os seres.

    

Entre os nove filmes da retrospectiva, A Vida de um Tatuado e As Flores e as Ondas Violentas aparecem como as obras de estúdio mais convencionais, mas mesmo nesse quadro mais ortodoxo surgem lampejos tipicamente suzukianos. Um dos mais marcantes ocorre após a morte do irmão do protagonista em A Vida de um Tatuado: depois de receber um golpe de espada mortal, nenhum sangue jorra de seu corpo, e é a rua inteira que se tinge progressivamente de vermelho, até contaminar o céu dos planos seguintes. A cor deixa então de ser um atributo para tornar-se um princípio atmosférico. Seguindo essa lógica artificial, a sequência final se abstrai quase inteiramente da narração que a precede e se organiza sobretudo segundo motifs cromáticos e rítmicos (o vermelho dos sapatos do vilão respondendo ao vermelho do céu, enquanto as portas deslizantes amarelas, azuis e brancas compõem um espaço quase musical, por onde desfilam corpos anônimos prontos para serem destruídos).

Suzuki nunca foi um narrador particularmente habilidoso, mas tinha um verdadeiro talento para convulsionar a narração de seus filmes em delírio formal: aqui, as relações entre os personagens não se desdobram na psicologia, mas na superfície mesma das imagens. É nessa primazia do estilo sobre a intriga que nasce seu lirismo trágico tão singular: um melodrama deslocado para a superfície das coisas, onde o próprio espaço parece experimentar a violência do mundo.


Corpos à venda, ilusões estilhaçadas

Seria errôneo ver em Suzuki um formalista inconsequente que levaria a forma de seus filmes até a abstração pura - se seu cinema tende a uma estilização extrema, essa superfície lúdica permanece sempre ancorada numa visão material do mundo. É preciso, portanto, distinguir niilismo e abstração: em Suzuki, a estilização não sublima a violência; ao contrário, ela a torna mais crua. A trilogia dedicada à prostituição oferece uma demonstração disso, desenhando uma cartografia política do Japão moderno em que, qualquer que seja o sistema representado - capitalismo selvagem (Portal da Carne), militarismo imperial (História de uma Prostituta) ou misoginia cultural (Carmen de Kawachi) - reproduz-se sistematicamente a mesma economia predatória dos corpos.

Em Portal da Carne, situado no Japão ocupado, toda relação é reduzida à lógica econômica de compra e venda. A micro-sociedade das prostitutas, autogerida segundo regras estritas, apenas radicaliza essa lógica mercantil, punindo qualquer desvio sentimental com o exílio ou a tortura. Ao mesmo tempo panorama social e fantasmagoria sórdida, o filme desenvolve uma arquitetura de cores primárias atribuídas aos personagens (cada prostituta é associada aqui a uma cor distinta) num sistema quase heráldico. Esse esplendor plástico compõe, contudo, um verdadeiro inferno, evocando uma espécie de comédia musical convulsionada à la Vincente Minnelli, cujo cromatismo teria sido transplantado para uma paisagem de lama e ruínas.

Se Portal da Carne mostra um mercado selvagem autogerido, História de uma Prostituta expõe uma prostituição administrada pelo Estado fascista - a violência aqui já não é tribal, mas burocrática. Yumiko Nogawa encarna uma figura quase animal, de uma fisicalidade impressionante, mordendo, se arrastando em quatro patas, enquanto seu corpo se torna a superfície de inscrição de um poder masculino. A guerra aparece como um espaço formal de confinamento, um sistema de regras arbitrárias que organiza o desejo e a punição, enquanto a hierarquia militar estrutura o mercado sexual e o corpo feminino se torna moeda disciplinar. Nesse universo em que o exército funciona como uma máquina de consumo dos corpos, o amor entre os dois protagonistas surge como um gesto improdutivo e, portanto, insuportável. O filme retoma assim a lógica do anterior: seja o sistema desregulado ou autoritário, ele exige a eliminação do afeto em favor de um utilitarismo absoluto.

Em Carmen de Kawachi, variação distante da ópera Carmen de Georges Bizet, essa crítica social assume uma forma mais abertamente burlesca e fragmentada. Contudo, por trás dos interlúdios musicais e das inversões cômicas dos papéis de gênero, a violência do filme permanece intacta. No início do relato, mal saída de um interlúdio romântico, a heroína tem sua bicicleta roubada. A perseguição parece primeiro cômica, mas, à medida que novos homens surgem para cercá-la, Suzuki fecha brutalmente o diafragma aos solavancos, escurecendo a imagem até sugerir uma agressão sexual fora de campo, que mais tarde é confirmada pelo relato. Do mesmo modo, o devaneio bucólico de um casal imaginando uma onsen a construir no campo é imediatamente contradito pela visão de um rio saturado de lixo. Como nos dois filmes anteriores, a rêverie aqui é sistematicamente suplantada pela matéria mais sórdida.



O artesanato suzukiano encontra um exemplo numa cena perto do fim, quando a ação se fragmenta subitamente numa série de fotogramas fixos. O efeito pode parecer puramente abstrato à primeira vista, até que se compreende que um personagem em cena (um artista) tem uma câmera fotográfica em mãos, e deduzimos que estamos vendo as imagens que ele captura. A sequência se conclui com um artifício ainda mais flagrante: um efeito deliberado de rebobinagem, com as imagens voltando para trás. Mas também não se trata de um capricho experimental, pois essa inversão encontra uma justificação diegética imediata: logo depois, o fotógrafo rebobina o filme de sua câmera. Esse duplo movimento de abstração formal seguido de ancoragem concreta é típico de Suzuki - um diretor que nunca destrói o dispositivo sem revelar simultaneamente a mecânica de sua demolição.


Eternas crianças escravas do falo: a histeria da virilidade

Os últimos filmes realizados por Suzuki para a Nikkatsu deslocam seu olhar para a própria masculinidade, por ele concebida como uma construção febril sempre à beira do colapso, em que a afirmação viril se torna tão excessiva que acaba revelando sua fragilidade. É nessa perspectiva que se inscreve A Elegia da Luta, filme que explora como a culpa católica e a repressão do desejo transformam a energia erótica em violência. O militarismo não aparece aqui como uma ideologia autônoma, mas como uma forma de sublimação: o desejo reprimido encontra na disciplina e na agressão uma válvula de escape socialmente legitimada. Os corpos dos atores são constantemente aprisionados numa rede de barras metálicas, pilares e divisórias que compartimentam o espaço; e a essa geometria constrangedora respondem digressões alucinadas (recordações fragmentárias, símbolos cristãos, clarões de brancura ou flores de cerejeira associadas a uma jovem mulher idealizada), elementos que assinalam uma tensão permanente entre desejo e repressão.

Essa fragilidade da virilidade assume uma forma ainda mais estilizada em Tóquio Violenta. Um exemplo aparece num gag em que um voyeur levanta os olhos para contemplar as calcinhas de uma dançarina suspensa acima da sala quando uma massa branca grotesca, evocando um excremento de pombo, se esmaga imediatamente sobre seu rosto. O fantasma erótico se converte em vexação, reduzindo a perversão do olhar a uma farsa humilhante.


Mais tarde na cena, a sequência opera segundo uma lógica de desconstrução espacial: figurantes surgem do fundo do salão e atravessam as portas para se lançar arbitrariamente ao primeiro plano, formando de repente uma massa compacta que obstrui o enquadramento, quase como um bloco de cenário em movimento. A lógica interna do combate deixa de estruturar o espaço; e é essa congestão humana arbitrária que redefine bruscamente suas linhas. Em seguida, na profundidade do campo, o chefe yakuza faz sua entrada, mas Suzuki corta imediatamente para trás de cortinas de madeira que se erguem como se revelassem um palco. A cena então é refeita, depurada, livre dos corpos parasitas. A violência se torna um gesto gráfico, uma repetição estilizada; o filme exibe sua própria teatralidade.


Tóquio Violenta é uma espécie de pastiche do filme yakuza, mas o gênero é ali esvaziado de sua substância por um dandismo radical: o herói já não tem interioridade, nada aprende, e parece deslizar de um cenário a outro como um motif gráfico. Se Portal da Carne atribuía uma função simbólica às cores, aqui elas se tornam atmosféricas e rítmicas, ornando o espaço mais do que o dando um significado. Num mundo em que a lealdade yakuza desapareceu, o protagonista surge como uma relíquia errante; sua errância é também a do próprio filme, que avança menos por progressão narrativa, e mais por deriva plástica.

Com A Marca do Assassino, essa desestabilização atinge um ponto de ruptura, levando ao extremo o fetichismo já presente na obra de Suzuki. O sexo e a morte se apresentam aqui como as únicas coordenadas, e o mundo se reduz a texturas e impulsos. A masculinidade aparece como uma competição fálica permanente (os assassinos do relato são classificados segundo uma hierarquia abstrata que reduz sua identidade à sua posição), uma doença autoimune em que homens, eternos adolescentes armados, manipulam seus revólveres como brinquedos enquanto vagueiam num estado de exaustão paranoica. Os personagens já não reagem pela psicologia, mas por impulso; o espaço se fragmenta e a continuidade narrativa é pulverizada por uma sucessão de experiências formais nas quais os corpos parecem se teleportar de um cenário a outro.

Uma cena mostra o protagonista entrar num apartamento e acender a luz, acionando assim um projetor que faz surgir Misako (personagem feminina central do filme, uma femme fatale que encarna a tensão entre erotismo e morte). Ela se mantém diante dele, seu corpo recortado pela sombra do projetor, oscilando entre presença física e projeção. Quando ele tropeça e faz o aparelho vacilar, ela se metamorfoseia completamente em imagem, projetada na parede, como se a projeção tivesse adquirido uma autonomia própria. Ele se lança contra essa projeção como se lutando contra a superfície irredutível e, quando chamas surgem na tela, elas parecem atingi-lo fisicamente. A sequência termina com uma inversão vertiginosa: sua própria testa se torna tela, e a distinção entre realidade e imagem se dissolvendo inteiramente.


A singularidade do niilismo de Suzuki reside em seu excesso paradoxalmente melodramático. Seus personagens são frequentemente punidos por seus sentimentos (o amor conduz à morte ou à ruína na maioria dos filmes da retrospectiva), e esses impulsos trágicos surgem sempre num lirismo incandescente que desaparece quase tão rapidamente quanto aparece. Mesmo em A Marca do Assassino esse lirismo subsiste: seria exagerado falar de amor entre o protagonista e Misako, mas o seu desamparo diante da tortura que ela sofre, seguido da obstinação com que tenta reencontrá-la na parte final do filme, introduz uma nota comovente nesse universo dominado pela derrisão e pelo fetichismo.

A sequência final leva essa tensão até o desencanto absoluto: durante um tiroteio em que os disparos parecem vir de todos os lados, Misako surge subitamente no vão de uma porta e é abatida pelo protagonista. Todos os personagens morrem na cena, a mulher, o adversário e o próprio assassino, e o espaço se esvazia para deixar apenas um ringue de boxe deserto, símbolo de uma virilidade transformada em cemitério. Nesse ponto, o mundo já não é mais do que um teatro de superfícies onde os corpos se consomem em sua própria estilização. À beira da implosão, o cinema de Suzuki revela sua verdade mais crua: uma arte de signos que se sustentam apenas pela violência com a qual se afirmam antes de se dissolver.







sábado, 1 de janeiro de 2022

2021

 

40 Filmes Favoritos:

40) El Planeta – Amalia Ulman

Em uma economia de especulações de um mundo que perde progressivamente seu valor concreto na abstração da multimídia, quanto vale um corpo? Ou melhor: quanto vale a sua imagem? O longa de estreia da Amalia Ulman é uma comédia pitoresca onde a impressão do mundo é mais importante que ele próprio. O humor gentrificado nova-iorquino só intensifica a experiência desesperadora dos tempos esvaziadores que atravessamos, e a balança entre o mundo físico e o virtual é muito sentida através da simplicidade formal e do olhar atento para arquitetura da jovem diretora, tornando o mundo e a ideia dele duas coisas radicalmente opostas.

49) Tromperie – Arnaud Desplechin

Adaptação do livro homônimo do Philip Roth, que sacrifica parte do humor descontroladamente excitado do autor em prol de uma intelectualização da ideia de desejo e narcisimo do seu personagem principal. Desplechin sistematiza uma estrutura sexual e metafísica onde as palavras e a maneira como estas são articuladas pelo corpo no espaço onde ele se encontra definem o grau de atração entre duas pessoas.


39) Resident Evil: Welcome to Raccoon City – Johannes Roberts

Exercício carpenteriano totalmente descontrolado e com delírios formais maravilhosos. É definitivamente um filme desalinhado e descocentrado, mas os seus prazeres dispersos e o tom deslocado compensam a utilização sem filtro da iconografia da série e o péssimo roteiro.


38) Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar – Marcelo Gomes

Não é um documentário perfeito, tendo que o trabalho nostálgico do diretor com a cidade é muito pessoal e distrai um pouco o filme da energia dos seus verdadeiros personagens. Mas a proposta, que parece ter saído de uma distopia social de ficção científica, é totalmente alucinante e o filme foi progressivamente me soando mais desesperador quanto mais eu fui refletindo sobre ele.


37) Les Amours d’Anaïs – Charline Bourgeois-Tacquet

Uma ode deslumbrada ao corpo da Anaïs Demoustier, e eu consigo pensar em poucas razões mais nobres para se fazer um filme.


36) Le Sommet des Dieux – Patrick Imbert

Belíssimo filme sobre uma paixão incondicional por alpinismo. A atenção e paciência do Imbert nas cenas em que os personagens estão em perigo são incríveis e os momentos de silêncio espiritual são realmente sublimes, mas a maior qualidade do filme é a de conseguir efetivamente construir esse universo onde o alpinismo não apenas é a raison d'être dos personagens, mas também o centro gravitacional do mundo no qual eles vivem.

35) La Llorona – Jayro Bustamante

Fantasmas do genocídio. Filme profundamente sul americano que retrata a política do século XX no continente como um pesadelo impossível de acordarmos ou esquecermos. A terra molhada de sangue lembra.


34) Madres Paralelas – Pedro Almodóvar

Lidando com um passado doloroso para ter a possibilidade de um futuro digno. Meu Almodóvar favorito em muito tempo, e provavelmente o filme mais profundamente humano do diretor. Se La Llorona é um filme que confronta diretamente o lado mais sombrio da política sul americana no século XX, este o faz com a história da Espanha no mesmo período. A abordagem estruturalista do astuto drama individual da personagem da Penélope Cruz com relação aos traumas da ditadura franquista no país é de um impacto dramático inegável.


33) The Empty Man – David Prior

Transcendência por implosão. Exercício de horror com uma modulação de tensão angustiante e robustez formal inteligente. Sobre mitos e lendas urbanas, o mundo é posto em dúvida até a máxima cartesiana ser posta em cheque. Absolutamente tudo se reduz a narrativa e fé.


32) Careless Crime – Shahram Mokri

Cinefilia em combustão. Um espetacular retrato da história política e cultural de um país através da história do seu cinema.


31) Malignant – James Wan

Wan totalmente fora de controle num exercício de gênero profundamente estilizado. Os excessos oitentistas do diretor aqui são deliciosamente sem vergonha. A cena do vídeo da personagem principal jovem com seu irmão no fim é de uma espirituosidade inesperada e de um delírio tão descomedido quanto o filme em si.


30) One Shot – James Nunn

Nunn encontrando soluções criativas com Adkins em um intrigante conflito político. Meu videogame favorito do ano.


29) A Metamorfose dos Pássaros – Catarina Vasconcelos

Recuperando tempo através de linguagem, à procura da vida escondida em todas as coisas. A poesia é belíssima e as lacunas entre os personagens, sejam elas espaciais ou temporais, dão ao filme uma sustentação bem frágil e preciosa.


28) Compartment No. 6 – Juho Kuosmanen

Declarações de amor através de constrangimentos e falta de jeito. Filme de uma humanidade bem inesperada e singular, bem engraçado e comovente. Haista vittu.


27) Murder Death Koreatown – Anônimo

Desemprego e mal estar social enveredando numa investigação paranormal conspiratória digna do pesadelo de um personagem do Pynchon. Uma das raras ocasiões onde a total imperícia formal do filme reforça a imersão do espectador na sua proposta delirante. A paranóia aqui é palpável e o desespero é bem efetivo.

26) Love and Monsters – Michael Matthews

Comédia adolescente emocionada. O design das criaturas é fascinante, a ação é variada e a força dramática está entre as mais enternecedoras do ano. O cachorro é maravilhoso, o O'Brien está ótimo no papel principal e a atenção do filme para elementos como um vestido vermelho, um batom esquecido, um amuleto da sorte dado por alguém amado ou um último abraço em um robô no seu leito de morte é de uma beleza bem singela. O filme realmente consegue manifestar de maneira bem marcante o peso e saudade de uma morte, a despeito do tom bem relaxado e humorístico do filme. O corpo sempre lembra.


25) Benedetta – Paul Verhoeven

Os caminhos divinos são misteriosos. A condução direta, sincera do Verhoeven balanceia muito bem o ponto de inflexão entre materialismo e espiritualidade sobre o qual o filme se estrutura.

24) Wife of a Spy – Kiyoshi Kurosawa


Coisas perdidas nas ambiguidades da guerra. Kurosawa tentando a mão em um melodrama paciente e tenso. É impressionante como ele consegue propor ideias de horror independente do gênero no qual ele está operando.


23) Train Again – Peter Tscherkassky

Dos exercícios experimentais mais excitantes e hipnotizantes do ano. Como de praxe, a exploração do Tscherkassky dentro de um imaginário cinéfilo é muito frutífera e as imagens assombram por muito mais tempo que elas duram.

22) Capitu e o Capítulo – Julio Bressane

Bressane reimaginando a prosa machadiana com luz e sombra. O diretor continua sendo provavelmente o mais criativo do mundo para propor novas maneiras de se encenar uma sequência entre dois atores e um texto.


21) Atarrabi & Mikelats – Eugène Green

Green nos convidando para um mundo de mitologia. Ética, espiritualidade, fé e morte são temas que sempre me instigam bastante e os ocasionais momentos de graça são sublimes.


20) Crazy Samurai Musashi – Yuji Shimomura

O exercício mais radical do ano. De uma violência inexprimível. Sempre à beira da exaustão, sempre movendo em frente, enquanto a pilha de corpos continua crescendo.


19) Onoda, 10 000 nuits dans la jungle – Arthur Harari

Tentando encontrar um valor inexistente nos sacrifícios feitos em nome de um ideário fascista. As interpretações são impressionantes e a insanidade da proposta vai se intensificando a cada movimento dramático. As elipses violentas fazem o filme soar consideravelmente mais curto que ele efetivamente é.


18) Raging Fire – Benny Chan

A despedida de um mestre do cinema de ação.


17) Annette – Leos Carax

Cantando trenodias de amor e violência. Uma operetta disforme, inteligentemente adornada e profundamente torturada. Os estilhaços do filme são bem dolorosos e a entrega desmesurada do Carax é sempre convulsiva.


16) What Do We See When We Look at the Sky – Alexandre Koberidze

O céu como reflexo da terra. Filme profundamente generoso, apaixonado pelo mundo e pelas possibilidades narrativas de explorá-lo. Sobre como nossos gestos e os espaços que habitamos nos conectam numa mesma rede de sentimentos e memórias.


15) Barb & Star Go to Vista Del Mar – Josh Greenbaum

Eu poderia tecer uma dezena de elogios a esse filme maravilhoso, mas vou me contentar em apontar o quão lindo e espirituoso é ver a personagem da Wiig se chamando de desprezível, nojenta e se sentindo alguém impossível de ser amada encontrando o amor com um galã uns vinte anos mais jovem que ela. Todo mundo é tão ingênuo que só se canta, dança, transa, ama e perdoa. Muito próximo do meu ideal de vida.


14) Hold Me Back – Akiko Ohku

Aprendendo a acalmar a crise de ansiedade com o som da água. O filme é lindíssimo, e o dispositivo esquizofrênico do Ohku aponta pra tudo quanto é lado, assim como a história da jovem Mitsuko tentando encontrar o caminho certo para construir sua vida.


13) The Velvet Underground – Todd Haynes

Reconstruindo a história do maior álbum da história da música e fazendo um breve panorama da vida de cada um dos envolvidos nos anos que seguiram. Os depoimentos são excelentes e a montagem do Haynes é espetacular, mas o grande trunfo aqui é a utilização de música e a mixagem de som no filme, que são realmente de outro mundo.


12) Memoria – Apichatpong Weerasethakul

A Colômbia como território propício para um surto de metempsicose mergulhado nos sons do mundo. Weerasethakul reimagina o clássico do Tourneur 'I Walked With a Zombie' como um thriller de arte tenso e sufocante. O olhar para arquitetura dele é bem elegante e as locações são incríveis. Os minutos finais são especialmente impactantes.


11) West Side Story – Steven Spielberg

Instantes que duram para sempre, porque a eternidade sempre dura muito pouco. Um exercício de mise en scène maravilhosamente bem encenado, cheio de recursos e ideias revigorantes que tornam o impacto dramático do filme bem forte e vívido. Se não fosse pelos 30 minutos finais estaria ainda mais alto na lista e seria meu Spielberg favorito com larga vantagem.

10) France – Bruno Dumont

Todas as possibilidades de um rosto. A Léa Seydoux entrega a interpretação do ano, ajudada pela concentração e arrebatamento na condução do Dumont.


9) Zeros and Ones – Abel Ferrara

Ferrara e Price Williams explorando texturas de amor e desespero numa Roma assombrada. A trama é virtualmente indecifrável, mas a violência e a beleza do filme são destilados de qualquer forma.


8) Introduction – Hong Sang-Soo

Interpretações e sentimentos. Ter frio é um elemento dramático como qualquer outro.


7) Cityscape – Michael Snow

A realidade e irrealidade da cidade.


6) Wheel of Fortune and Fantasy – Ryusuke Hamaguchi

Desejos da carne e contradições da alma. Exercício rohmeriano trifurcado bem elegante e loquaz. Tem uma ponta sardônica que dá muita energia para a rede de desejos e sentimentos dos personagens.


5) From Bakersfield to Mojave – James Benning

Benning inspirado nos dá pérolas como essa. O jogo entre silêncio e som aqui é tão extraordinário quanto a exploração visual.


4) Labyrinth of Cinema – Nobuhiko Obayashi

"O meu amor por ela agora faz parte da História". Histoire(s) du Cinéma do Obayashi. A despedida de um mestre, um filme errático e convulsivo que parece conter toda a beleza e tristeza do mundo.


3) Drive My Car – Ryusuke Hamaguchi

Palavras como rodas. Um filme com a esperança que a linguagem vai botar o mundo em movimento para além do nosso sofrimento. Esse filme me faz pensar muito em uma sueca cujo nome esqueci que conheci em Hiroshima. Era raro encontrar alguém que falasse inglês no Japão, então conversamos muito, e me lembro que ela sorria com muita freqüência. Só ficamos em silêncio durante nossa visita ao museu, um lugar profundamente lúgubre que parece atormentado por inércia, e eu segui meu caminho sem dizer adeus a ela apropriadamente. Gostaria de ter resistido, e de ter ficado o resto da tarde com ela. O silêncio tem essa força de reproduzir a mesma fita repetidamente, tornando difícil avançar, por isso é preciso resistir, falar e atuar e viver. Espero que ela esteja sorrindo, onde quer que ela esteja.


1 e 2) Cry Macho – Clint Eastwood

Um ovni de generosidade e beleza inefáveis. Exercício totalmente anti-dramatúrgico, mais preocupado com a possibilidade de tirar uma soneca e acordar com o canto de um galo no meio do filme do que na história que se conta em si. Um filme que não quer chegar em lugar nenhum porque ele sempre está onde deve estar, totalmente dedicado à fenomenologia do instante, não se preocupando com nada além do presente. Vivendo e sentindo coisas no nosso alcance, tentando ser um pouco melhor a cada dia: mesmo no crepúsculo da vida, aprendendo a não saber, aprendendo a se apoiar em um mundo maior que você mesmo.


1 e 2) In Front of Your Face – Hong Sang-Soo

Um gosto do sublime nas irregularidades da imagem, ou na dissonância de uma melodia de violão. Aprendendo a dizer as coisas diretamente, afinal elas estão logo à nossa frente. Um filme feito por alguém que encontrou a paz, tocado pela graça, no seu estado mais puro.

 

100 Álbuns Favoritos:

1) black midi – Cavalcade

2) Floating Points / Pharoah Sanders / The London Symphony Orchestra – Promises

3) Black Country, New Road – For the First Time

4) Fievel is Glauque – God’s Trashmen Sent to the Right Mess

5) Squid – Bright Green Field

6) Parannoul – To See the Next Part of the Dream

7) Mdou Moctar – Afrique Victime

8) FBC – BAILE

9) Yukika – timeabout,

10) La Nòvia – Le soleil ni même la lune

11) Lil Ugly Mane – Volcanic Bird Enemy and the Voice Concerned

12) Sloppy Jane – Madison

13) William Doyle – Great Spans of Muddy Time

14) Índio da Cuíca – Malandro 5 Estrelas

15) Daniel Bachman - Axacan

16) Richard Dawson & Circle – Henki

17) João Gomes – Eu Tenho a Senha

18) Little Simz – Sometimes I Might Be Introvert

19) Nick Cave & Warren Ellis – Carnage

20) L’Rain – Fatigue

21) slowthai – TYRON

22) Blu – The Color Blu(e)

23) Liars – The Apple Drop

24) DJ Manny – Signals in my Head

25) Juçara Marçal – Delta Estácio Blues

26) Viagra Boys – Welfare Jazz

27) The Bug – Fire

28) Snail Mail – Valentine

29) Jane Weaver – Flock

30) Panopticon - … And Again Into the Light

31) Kanye West – Donda

32) Iceage – Seek Shelter

33) Tyler, the Creator – Call Me If You Get Lost

34) Black Dresses - Forever in Your Heart

35) aespa – Savage

36) Yu Su – Yellow River Blue

37) Armand Hammer & The Alchemist - Haram

38) The Weather Station – Ignorance

39) Spellling – The Turning Wheel

40) Japanese Breakfast – Jubilee

41) Tasha & Tracie – Diretoria

42) Really From – Really From

43) Jana Rush – Painful Enlightenment

44) Moor Mother – Black Encyclopedia of the Air

45) Arca – Kick iii

46) Injury Reserve – By the Time I Get to Phoenix

47) Billie Eilish – Happier Than Ever

48) JPEGMAFIA – LP!

49) Godspeed You! Black Emperor – G_D’S PEE AT STATE’S END!

50) Bacxwash – I LIE HERE BURIED WITH MY RINGS AND MY DRESSES

51) Jadsa – Olho de Vidro

52) Wiki – Half God

53) Nas – King’s Disease II

54) Meridian Brothers / Conjunto Media Luna - Paz en la Tierra

55) Tuyo – Chegamos Sozinhos em Casa

56) Jazmine Sullivan – Heaux Tales

57) Romulo Froés – Aquele Nenhum

58) Parannoul – Let’s Walk on the Path of a Blue Cat

59) Converge & Chelsea Wolfe – Bloodmoon: I

60) CLAIR – Earth Mothers

61) Genesis Owusu – Smiling with No Teeth5

62) Sufjan Stevens & Angelo De Augustine – A Beginner’s Mind

63) Circuit des Yeux - -io

64) illuminati hotties – Let Me Do One More

65) Arca – Kick ii

66) Grouper – Shade

67) Weezer – OK Human

68) Dean Blunt – Black Metal 2

69) Cassandra Jenkins – An Overview on Phenomenal Nature

70) Kayo Dot – Moss Grew on the Swords and Plowshares Alike

71) Cães de Prata – Nocaute

72) Aesop Rock & Blockhead - Garbology

73) Don L – Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2)

74) Porter Robinson – Nurture

75) Genevieve Murphy – I Don’t Want to be an Individual on my Own

76) Lingua Ignota – SINNER GET READY

77) Badsista – Gueto Elegance

78) St. Vincent – Daddy’s Home

79) Linn da Quebrada – Trava Línguas

80) Lady Gaga – Dawn Of Chromatica

81) Turnstile – GLOW ON

82) Yola – Stand for Myself

83) Amaro Freitas - Sankofa

84) Sleaford Mods – Spare Ribs

85) Magdalena Bay – Mercurial World

86) Natalia Lafourcade – Un Canto por México, Vol. II

87) Rico Dalasam - Dolores Dala Guardião do Alívio

88) Red Velvet – Queendom

89) Deerhoof - Actually, You Can

90) Wolves in the Throne Room – Primordial Arcana

91) Laura Stevenson – Laura Stevenson

92) aya – i’m hole

93) Marina Sena – De Primeira

94) Colleen – The Tunnel and the Clearing

95) Silk Sonic – An Evening with Silk Sonic

96) Newfound Interest in Connecticut – Tell Me About the Long Dark Path Home

97) Loraine James – Reflection

98) Divide and Dissolve – Gas Lit

99) Tirzah - Colourgrade

100) Pauline Anna Strom – Angel Tears in Sunlight

 

Livros Lidos:

Le Jeu de l’Amour et du Hasard – Pierre de Marivaux

La Double Inconstance - Pierre de Marivaux

Le Discours – Fabrice Caro

Un Balcon en Forêt – Julien Gracq

Anatomy of Story – John Truby

Le Dernier Jour d’un Condamné – Victor Hugo

The Numbers – Victor Pelevin

Los Detectives Salvajes – Roberto Bolaño

A Game of Chess and Other Stories – Stephan Zweig

Les Âmes Fortes – Jean Giono

The Man in The High Castle – Philip K. Dick

Kafka on the Shore – Haruki Murakami

Norwegian Wood – Haruki Murakami

Austerlitz - W. G. Sebald

Slaughterhouse 5 – Kurt Vonnegut

Siddhartha – Herman Hesse

The Dead Zone - Stephen King

L’écume des Jours – Boris Vian

Crônica do Pássaro de Corda – Haruki Murakami