sábado, 1 de janeiro de 2022

2021

 

40 Filmes Favoritos:

40) El Planeta – Amalia Ulman

Em uma economia de especulações de um mundo que perde progressivamente seu valor concreto na abstração da multimídia, quanto vale um corpo? Ou melhor: quanto vale a sua imagem? O longa de estreia da Amalia Ulman é uma comédia pitoresca onde a impressão do mundo é mais importante que ele próprio. O humor gentrificado nova-iorquino só intensifica a experiência desesperadora dos tempos esvaziadores que atravessamos, e a balança entre o mundo físico e o virtual é muito sentida através da simplicidade formal e do olhar atento para arquitetura da jovem diretora, tornando o mundo e a ideia dele duas coisas radicalmente opostas.

49) Tromperie – Arnaud Desplechin

Adaptação do livro homônimo do Philip Roth, que sacrifica parte do humor descontroladamente excitado do autor em prol de uma intelectualização da ideia de desejo e narcisimo do seu personagem principal. Desplechin sistematiza uma estrutura sexual e metafísica onde as palavras e a maneira como estas são articuladas pelo corpo no espaço onde ele se encontra definem o grau de atração entre duas pessoas.


39) Resident Evil: Welcome to Raccoon City – Johannes Roberts

Exercício carpenteriano totalmente descontrolado e com delírios formais maravilhosos. É definitivamente um filme desalinhado e descocentrado, mas os seus prazeres dispersos e o tom deslocado compensam a utilização sem filtro da iconografia da série e o péssimo roteiro.


38) Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar – Marcelo Gomes

Não é um documentário perfeito, tendo que o trabalho nostálgico do diretor com a cidade é muito pessoal e distrai um pouco o filme da energia dos seus verdadeiros personagens. Mas a proposta, que parece ter saído de uma distopia social de ficção científica, é totalmente alucinante e o filme foi progressivamente me soando mais desesperador quanto mais eu fui refletindo sobre ele.


37) Les Amours d’Anaïs – Charline Bourgeois-Tacquet

Uma ode deslumbrada ao corpo da Anaïs Demoustier, e eu consigo pensar em poucas razões mais nobres para se fazer um filme.


36) Le Sommet des Dieux – Patrick Imbert

Belíssimo filme sobre uma paixão incondicional por alpinismo. A atenção e paciência do Imbert nas cenas em que os personagens estão em perigo são incríveis e os momentos de silêncio espiritual são realmente sublimes, mas a maior qualidade do filme é a de conseguir efetivamente construir esse universo onde o alpinismo não apenas é a raison d'être dos personagens, mas também o centro gravitacional do mundo no qual eles vivem.

35) La Llorona – Jayro Bustamante

Fantasmas do genocídio. Filme profundamente sul americano que retrata a política do século XX no continente como um pesadelo impossível de acordarmos ou esquecermos. A terra molhada de sangue lembra.


34) Madres Paralelas – Pedro Almodóvar

Lidando com um passado doloroso para ter a possibilidade de um futuro digno. Meu Almodóvar favorito em muito tempo, e provavelmente o filme mais profundamente humano do diretor. Se La Llorona é um filme que confronta diretamente o lado mais sombrio da política sul americana no século XX, este o faz com a história da Espanha no mesmo período. A abordagem estruturalista do astuto drama individual da personagem da Penélope Cruz com relação aos traumas da ditadura franquista no país é de um impacto dramático inegável.


33) The Empty Man – David Prior

Transcendência por implosão. Exercício de horror com uma modulação de tensão angustiante e robustez formal inteligente. Sobre mitos e lendas urbanas, o mundo é posto em dúvida até a máxima cartesiana ser posta em cheque. Absolutamente tudo se reduz a narrativa e fé.


32) Careless Crime – Shahram Mokri

Cinefilia em combustão. Um espetacular retrato da história política e cultural de um país através da história do seu cinema.


31) Malignant – James Wan

Wan totalmente fora de controle num exercício de gênero profundamente estilizado. Os excessos oitentistas do diretor aqui são deliciosamente sem vergonha. A cena do vídeo da personagem principal jovem com seu irmão no fim é de uma espirituosidade inesperada e de um delírio tão descomedido quanto o filme em si.


30) One Shot – James Nunn

Nunn encontrando soluções criativas com Adkins em um intrigante conflito político. Meu videogame favorito do ano.


29) A Metamorfose dos Pássaros – Catarina Vasconcelos

Recuperando tempo através de linguagem, à procura da vida escondida em todas as coisas. A poesia é belíssima e as lacunas entre os personagens, sejam elas espaciais ou temporais, dão ao filme uma sustentação bem frágil e preciosa.


28) Compartment No. 6 – Juho Kuosmanen

Declarações de amor através de constrangimentos e falta de jeito. Filme de uma humanidade bem inesperada e singular, bem engraçado e comovente. Haista vittu.


27) Murder Death Koreatown – Anônimo

Desemprego e mal estar social enveredando numa investigação paranormal conspiratória digna do pesadelo de um personagem do Pynchon. Uma das raras ocasiões onde a total imperícia formal do filme reforça a imersão do espectador na sua proposta delirante. A paranóia aqui é palpável e o desespero é bem efetivo.

26) Love and Monsters – Michael Matthews

Comédia adolescente emocionada. O design das criaturas é fascinante, a ação é variada e a força dramática está entre as mais enternecedoras do ano. O cachorro é maravilhoso, o O'Brien está ótimo no papel principal e a atenção do filme para elementos como um vestido vermelho, um batom esquecido, um amuleto da sorte dado por alguém amado ou um último abraço em um robô no seu leito de morte é de uma beleza bem singela. O filme realmente consegue manifestar de maneira bem marcante o peso e saudade de uma morte, a despeito do tom bem relaxado e humorístico do filme. O corpo sempre lembra.


25) Benedetta – Paul Verhoeven

Os caminhos divinos são misteriosos. A condução direta, sincera do Verhoeven balanceia muito bem o ponto de inflexão entre materialismo e espiritualidade sobre o qual o filme se estrutura.

24) Wife of a Spy – Kiyoshi Kurosawa


Coisas perdidas nas ambiguidades da guerra. Kurosawa tentando a mão em um melodrama paciente e tenso. É impressionante como ele consegue propor ideias de horror independente do gênero no qual ele está operando.


23) Train Again – Peter Tscherkassky

Dos exercícios experimentais mais excitantes e hipnotizantes do ano. Como de praxe, a exploração do Tscherkassky dentro de um imaginário cinéfilo é muito frutífera e as imagens assombram por muito mais tempo que elas duram.

22) Capitu e o Capítulo – Julio Bressane

Bressane reimaginando a prosa machadiana com luz e sombra. O diretor continua sendo provavelmente o mais criativo do mundo para propor novas maneiras de se encenar uma sequência entre dois atores e um texto.


21) Atarrabi & Mikelats – Eugène Green

Green nos convidando para um mundo de mitologia. Ética, espiritualidade, fé e morte são temas que sempre me instigam bastante e os ocasionais momentos de graça são sublimes.


20) Crazy Samurai Musashi – Yuji Shimomura

O exercício mais radical do ano. De uma violência inexprimível. Sempre à beira da exaustão, sempre movendo em frente, enquanto a pilha de corpos continua crescendo.


19) Onoda, 10 000 nuits dans la jungle – Arthur Harari

Tentando encontrar um valor inexistente nos sacrifícios feitos em nome de um ideário fascista. As interpretações são impressionantes e a insanidade da proposta vai se intensificando a cada movimento dramático. As elipses violentas fazem o filme soar consideravelmente mais curto que ele efetivamente é.


18) Raging Fire – Benny Chan

A despedida de um mestre do cinema de ação.


17) Annette – Leos Carax

Cantando trenodias de amor e violência. Uma operetta disforme, inteligentemente adornada e profundamente torturada. Os estilhaços do filme são bem dolorosos e a entrega desmesurada do Carax é sempre convulsiva.


16) What Do We See When We Look at the Sky – Alexandre Koberidze

O céu como reflexo da terra. Filme profundamente generoso, apaixonado pelo mundo e pelas possibilidades narrativas de explorá-lo. Sobre como nossos gestos e os espaços que habitamos nos conectam numa mesma rede de sentimentos e memórias.


15) Barb & Star Go to Vista Del Mar – Josh Greenbaum

Eu poderia tecer uma dezena de elogios a esse filme maravilhoso, mas vou me contentar em apontar o quão lindo e espirituoso é ver a personagem da Wiig se chamando de desprezível, nojenta e se sentindo alguém impossível de ser amada encontrando o amor com um galã uns vinte anos mais jovem que ela. Todo mundo é tão ingênuo que só se canta, dança, transa, ama e perdoa. Muito próximo do meu ideal de vida.


14) Hold Me Back – Akiko Ohku

Aprendendo a acalmar a crise de ansiedade com o som da água. O filme é lindíssimo, e o dispositivo esquizofrênico do Ohku aponta pra tudo quanto é lado, assim como a história da jovem Mitsuko tentando encontrar o caminho certo para construir sua vida.


13) The Velvet Underground – Todd Haynes

Reconstruindo a história do maior álbum da história da música e fazendo um breve panorama da vida de cada um dos envolvidos nos anos que seguiram. Os depoimentos são excelentes e a montagem do Haynes é espetacular, mas o grande trunfo aqui é a utilização de música e a mixagem de som no filme, que são realmente de outro mundo.


12) Memoria – Apichatpong Weerasethakul

A Colômbia como território propício para um surto de metempsicose mergulhado nos sons do mundo. Weerasethakul reimagina o clássico do Tourneur 'I Walked With a Zombie' como um thriller de arte tenso e sufocante. O olhar para arquitetura dele é bem elegante e as locações são incríveis. Os minutos finais são especialmente impactantes.


11) West Side Story – Steven Spielberg

Instantes que duram para sempre, porque a eternidade sempre dura muito pouco. Um exercício de mise en scène maravilhosamente bem encenado, cheio de recursos e ideias revigorantes que tornam o impacto dramático do filme bem forte e vívido. Se não fosse pelos 30 minutos finais estaria ainda mais alto na lista e seria meu Spielberg favorito com larga vantagem.

10) France – Bruno Dumont

Todas as possibilidades de um rosto. A Léa Seydoux entrega a interpretação do ano, ajudada pela concentração e arrebatamento na condução do Dumont.


9) Zeros and Ones – Abel Ferrara

Ferrara e Price Williams explorando texturas de amor e desespero numa Roma assombrada. A trama é virtualmente indecifrável, mas a violência e a beleza do filme são destilados de qualquer forma.


8) Introduction – Hong Sang-Soo

Interpretações e sentimentos. Ter frio é um elemento dramático como qualquer outro.


7) Cityscape – Michael Snow

A realidade e irrealidade da cidade.


6) Wheel of Fortune and Fantasy – Ryusuke Hamaguchi

Desejos da carne e contradições da alma. Exercício rohmeriano trifurcado bem elegante e loquaz. Tem uma ponta sardônica que dá muita energia para a rede de desejos e sentimentos dos personagens.


5) From Bakersfield to Mojave – James Benning

Benning inspirado nos dá pérolas como essa. O jogo entre silêncio e som aqui é tão extraordinário quanto a exploração visual.


4) Labyrinth of Cinema – Nobuhiko Obayashi

"O meu amor por ela agora faz parte da História". Histoire(s) du Cinéma do Obayashi. A despedida de um mestre, um filme errático e convulsivo que parece conter toda a beleza e tristeza do mundo.


3) Drive My Car – Ryusuke Hamaguchi

Palavras como rodas. Um filme com a esperança que a linguagem vai botar o mundo em movimento para além do nosso sofrimento. Esse filme me faz pensar muito em uma sueca cujo nome esqueci que conheci em Hiroshima. Era raro encontrar alguém que falasse inglês no Japão, então conversamos muito, e me lembro que ela sorria com muita freqüência. Só ficamos em silêncio durante nossa visita ao museu, um lugar profundamente lúgubre que parece atormentado por inércia, e eu segui meu caminho sem dizer adeus a ela apropriadamente. Gostaria de ter resistido, e de ter ficado o resto da tarde com ela. O silêncio tem essa força de reproduzir a mesma fita repetidamente, tornando difícil avançar, por isso é preciso resistir, falar e atuar e viver. Espero que ela esteja sorrindo, onde quer que ela esteja.


1 e 2) Cry Macho – Clint Eastwood

Um ovni de generosidade e beleza inefáveis. Exercício totalmente anti-dramatúrgico, mais preocupado com a possibilidade de tirar uma soneca e acordar com o canto de um galo no meio do filme do que na história que se conta em si. Um filme que não quer chegar em lugar nenhum porque ele sempre está onde deve estar, totalmente dedicado à fenomenologia do instante, não se preocupando com nada além do presente. Vivendo e sentindo coisas no nosso alcance, tentando ser um pouco melhor a cada dia: mesmo no crepúsculo da vida, aprendendo a não saber, aprendendo a se apoiar em um mundo maior que você mesmo.


1 e 2) In Front of Your Face – Hong Sang-Soo

Um gosto do sublime nas irregularidades da imagem, ou na dissonância de uma melodia de violão. Aprendendo a dizer as coisas diretamente, afinal elas estão logo à nossa frente. Um filme feito por alguém que encontrou a paz, tocado pela graça, no seu estado mais puro.

 

100 Álbuns Favoritos:

1) black midi – Cavalcade

2) Floating Points / Pharoah Sanders / The London Symphony Orchestra – Promises

3) Black Country, New Road – For the First Time

4) Fievel is Glauque – God’s Trashmen Sent to the Right Mess

5) Squid – Bright Green Field

6) Parannoul – To See the Next Part of the Dream

7) Mdou Moctar – Afrique Victime

8) FBC – BAILE

9) Yukika – timeabout,

10) La Nòvia – Le soleil ni même la lune

11) Lil Ugly Mane – Volcanic Bird Enemy and the Voice Concerned

12) Sloppy Jane – Madison

13) William Doyle – Great Spans of Muddy Time

14) Índio da Cuíca – Malandro 5 Estrelas

15) Daniel Bachman - Axacan

16) Richard Dawson & Circle – Henki

17) João Gomes – Eu Tenho a Senha

18) Little Simz – Sometimes I Might Be Introvert

19) Nick Cave & Warren Ellis – Carnage

20) L’Rain – Fatigue

21) slowthai – TYRON

22) Blu – The Color Blu(e)

23) Liars – The Apple Drop

24) DJ Manny – Signals in my Head

25) Juçara Marçal – Delta Estácio Blues

26) Viagra Boys – Welfare Jazz

27) The Bug – Fire

28) Snail Mail – Valentine

29) Jane Weaver – Flock

30) Panopticon - … And Again Into the Light

31) Kanye West – Donda

32) Iceage – Seek Shelter

33) Tyler, the Creator – Call Me If You Get Lost

34) Black Dresses - Forever in Your Heart

35) aespa – Savage

36) Yu Su – Yellow River Blue

37) Armand Hammer & The Alchemist - Haram

38) The Weather Station – Ignorance

39) Spellling – The Turning Wheel

40) Japanese Breakfast – Jubilee

41) Tasha & Tracie – Diretoria

42) Really From – Really From

43) Jana Rush – Painful Enlightenment

44) Moor Mother – Black Encyclopedia of the Air

45) Arca – Kick iii

46) Injury Reserve – By the Time I Get to Phoenix

47) Billie Eilish – Happier Than Ever

48) JPEGMAFIA – LP!

49) Godspeed You! Black Emperor – G_D’S PEE AT STATE’S END!

50) Bacxwash – I LIE HERE BURIED WITH MY RINGS AND MY DRESSES

51) Jadsa – Olho de Vidro

52) Wiki – Half God

53) Nas – King’s Disease II

54) Meridian Brothers / Conjunto Media Luna - Paz en la Tierra

55) Tuyo – Chegamos Sozinhos em Casa

56) Jazmine Sullivan – Heaux Tales

57) Romulo Froés – Aquele Nenhum

58) Parannoul – Let’s Walk on the Path of a Blue Cat

59) Converge & Chelsea Wolfe – Bloodmoon: I

60) CLAIR – Earth Mothers

61) Genesis Owusu – Smiling with No Teeth5

62) Sufjan Stevens & Angelo De Augustine – A Beginner’s Mind

63) Circuit des Yeux - -io

64) illuminati hotties – Let Me Do One More

65) Arca – Kick ii

66) Grouper – Shade

67) Weezer – OK Human

68) Dean Blunt – Black Metal 2

69) Cassandra Jenkins – An Overview on Phenomenal Nature

70) Kayo Dot – Moss Grew on the Swords and Plowshares Alike

71) Cães de Prata – Nocaute

72) Aesop Rock & Blockhead - Garbology

73) Don L – Roteiro pra Aïnouz (Vol. 2)

74) Porter Robinson – Nurture

75) Genevieve Murphy – I Don’t Want to be an Individual on my Own

76) Lingua Ignota – SINNER GET READY

77) Badsista – Gueto Elegance

78) St. Vincent – Daddy’s Home

79) Linn da Quebrada – Trava Línguas

80) Lady Gaga – Dawn Of Chromatica

81) Turnstile – GLOW ON

82) Yola – Stand for Myself

83) Amaro Freitas - Sankofa

84) Sleaford Mods – Spare Ribs

85) Magdalena Bay – Mercurial World

86) Natalia Lafourcade – Un Canto por México, Vol. II

87) Rico Dalasam - Dolores Dala Guardião do Alívio

88) Red Velvet – Queendom

89) Deerhoof - Actually, You Can

90) Wolves in the Throne Room – Primordial Arcana

91) Laura Stevenson – Laura Stevenson

92) aya – i’m hole

93) Marina Sena – De Primeira

94) Colleen – The Tunnel and the Clearing

95) Silk Sonic – An Evening with Silk Sonic

96) Newfound Interest in Connecticut – Tell Me About the Long Dark Path Home

97) Loraine James – Reflection

98) Divide and Dissolve – Gas Lit

99) Tirzah - Colourgrade

100) Pauline Anna Strom – Angel Tears in Sunlight

 

Livros Lidos:

Le Jeu de l’Amour et du Hasard – Pierre de Marivaux

La Double Inconstance - Pierre de Marivaux

Le Discours – Fabrice Caro

Un Balcon en Forêt – Julien Gracq

Anatomy of Story – John Truby

Le Dernier Jour d’un Condamné – Victor Hugo

The Numbers – Victor Pelevin

Los Detectives Salvajes – Roberto Bolaño

A Game of Chess and Other Stories – Stephan Zweig

Les Âmes Fortes – Jean Giono

The Man in The High Castle – Philip K. Dick

Kafka on the Shore – Haruki Murakami

Norwegian Wood – Haruki Murakami

Austerlitz - W. G. Sebald

Slaughterhouse 5 – Kurt Vonnegut

Siddhartha – Herman Hesse

The Dead Zone - Stephen King

L’écume des Jours – Boris Vian

Crônica do Pássaro de Corda – Haruki Murakami

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Tempo - M. Night Shyamalan (2021)


Nada é menos do que o momento presente, se entendermos por isso o indizível instante que separa o passado do futuro.

Henri Bergson

Old não é um filme sobre o medo da morte, é um filme sobre o medo do tempo, medo da vida. Medo do futuro, mas também do passado, medos que impedem a vida de existir na imediação do presente.

Uma vez a minha avó olhou para mim e me disse que ela sentia como se todos os momentos mais importantes da vida dela tivessem se concluído em um piscar de olhos. A minha mãe sempre me diz algo parecido: ela olhou para mim quando eu nasci, e quando piscou eu já andava. Ela piscou novamente e eu comecei a falar, piscou mais uma vez e eu me formei, piscou finalmente e eu estava saindo de casa para morar fora. O tempo não existe, o que existe é memória e abstração.

Shyamalan parece interessado em construir uma comédia deslocada em um exercício de gênero próximo do horror. A proposta é corriqueira, mas a maneira com a qual ele lida com ela é absolutamente radical. Radical não apenas num sentido narrativo mas também formal, a liberdade do dispositivo nesse filme é algo maravilhoso de se presenciar. Fechando o universo do filme para o microcosmo de uma praia, Shyamalan se obriga a encontrar ângulos diferentes e planos insólitos, cada etapa narrativa do filme soando sempre original, repleta de novas decisões formais que tornam a estética do filme algo próximo de um filme experimental. Ao invés de contar uma história ao expor um mundo, ele prefere criá-lo, moldando, dilatando e esmagando sua matéria até que o filme tome forma.

A violência com a qual os personagens surgem e desaparecem no filme (que não tem quase nenhuma preocupação em articular esses desvios narrativos para além do efeito sensível que cada uma dessas sequências têm no espectador e nas ambições temáticas do filme) e a aparente inépcia da dramaturgia (origem de boa parte do seu humor) funcionam tão bem porque Shyamalan nunca foi interessado em uma verossimilhança comportamental de seus personagens. Ao mesmo tempo que seus personagens não existem como simples muletas narrativas - ele nunca os utilizou como signos desprovidos de singularidade em prol das suas ambições hermenêuticas e narrativas, cada personagem é sempre habitado com uma personalidade bastante precisa e possui desejos, medos, traumas, que lhes são muito preciosos - estes também são frequentemente colocados para agir de forma totalmente desfasada da realidade, submetidos a uma configuração altamente estilizada e romanesca, tão única nessa noção desmedida de espetáculo.

O mais lindo aqui é como em uma duração de menos de duas horas os personagens vão se metamorfoseando não apenas esteticamente mas também internamente, evoluindo e sentindo novas sensações, tendo novas ideias, vivendo novas experiências. Os nossos corpos mudam mas nossas almas também. O tempo não apenas destrói, mas também repara. A beleza da vida é que mesmo após nossos erros, mesmo após os erros que os outros infligem contra nós, ainda somos capazes de perdoar e de sermos perdoados. A redenção sempre é possível, mesmo que ela se configure como martírio - nesse sentido, a personagem da modelo obcecada por beleza tem um arco que me impacta particularmente. A cena que conclui seu percurso, expondo a fragilidade do seu corpo e o trauma que ela tem que confrontar, é uma incrível sequência de body horror que incorpora de maneira bastante violenta a turbulência psicológica que um amor perdido e a culpa que ela sentia causavam nela.

A reviravolta final faz pouquíssimo sentido e retira o filme totalmente da sua ambiência enclausuradora, mas quem se importa, sinceramente. Shyamalan conclui seu filme de verdade no momento em que duas pessoas que se amaram muito morrem lado a lado, logo depois de encontrarem a redenção enquanto uma onda quebrava no limite da praia. E no dia seguinte a aceitação que vem de dois amigos, que ao invés de continuar lutando contra o tempo, simplesmente se sentam na areia molhada e começam a fazer castelos de areia juntos. Talvez o tempo não seja tão assustador assim quanto nossas consciências fazem parecer.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

2020

 50 Filmes Favoritos:

Filmes lançados entre 2018-2020 assistidos pela primeira vez em 2020.

50) Siberia – Abel Ferrara

49) Garden City Beautiful – Ben Balcom

48) Underwater – William Eubank

47) A Morte Branca do Feiticeiro Negro – Rodrigo Ribeiro

46) Dad is Gone – Pere Ginard

45) L’île au Trésor – Guillaume Brac

44) Un Soupçon d’Amour – Paul Vecchiali

43) Alone – John Hyams

42) Da 5 Bloods – Spike Lee

41) La France Contre Les Robots – Jean-Marie Straub

40) Gloria Mundi – Robert Guédiguian

39) The Wild Goose Lake – Diao Yi’nan

38) Ne croyez surtout pas que je hurle – Frank Beauvais

37) La Gomera – Corneliu Porumboiu

36) Farewell Song – Akihiko Shiota

35) Amazing Grace – Sydney Pollack, Alan Elliott

34) Bad Hair – Justin Simien

33) Work It – Laura Terruso

32) Train de Vies – Paul Vecchiali

31) Never Rarely Sometimes Always – Eliza Hittman

30) Le Sel des Larmes – Philippe Garrel

29) Alice et le Maire – Nicolas Pariser

28) If You Could Go Back, I Would See Her. – Joshua R. Troxler

27) Postdigital Flipbook – Pablo-Martín Córdoba

26) 中孚 61 La Verdad Interior – Sofía Brito

25) Watching the Pain of Others – Chloé Galibert-Laîné

24) L. Cohen – James Benning

23) Dark Waters – Todd Haynes

22) First Cow – Kelly Reichardt

21) Undine – Christian Petzold

20) It Feels So Good – Haruhiko Arai

19) Fourteen – Dan Sallitt

18) Technoboss – João Nicolau

17) O Colírio do Corman me Deixou Doido Demais – Ivan Cardoso

16) A Densa Nuve, O Seio – Vinícius Romero

15) É Rocha e Rio, Negro Leo – Paula Gaitán

14) Richard Jewell – Clint Eastwood

13) Dwelling in the Fuchun Mountains – Gu Xiaogang

12) Days – Tsai Ming-Liang

11) The King of Staten Island – Judd Apatow

10) Tommaso – Abel Ferrara

9) The Man in the Woods – Noah Buschel

8) Sertânia – Geraldo Sarno

7) Ilha – Ary Rosa, Glenda Nicácio

6) Antoinette dans les Cévennes – Caroline Vignal

5) À l’Abordage ! – Guillaume Brac

4) My Mexican Bretzel – Nuria Giménez

3) City Hall – Frederick Wiseman

2) The Woman Who Ran – Hong Sang-Soo

1) Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait – Emmanuel Mouret


PS: A grande maioria dos filmes selecionados foram comentados aqui: https://letterboxd.com/diogoserafim/


100 Álbuns Favoritos:

1) Fiona Apple - Fetch the Bolt Cutters

2) Cindy Lee – What’s Tonight to Eternity

3) Beatrice Dillon - Workaround

4) Yukika – Soul Lady

5) Ichiko Aoba – Windswept Adan

6) Rina Sawayama – SAWAYAMA

7) Delphine Dora - L’innatingible

8) Meridian Brothers – Cumbia Siglo XXI

9) Haru Nemuri – Lovetheism

10) DJ Python – Mas Amable

11) Mateus Aleluia - Olorum

12) Jessie Ware – What’s Your Pleasure

13) Beatriz Ferreyra – Echos+

14) Lido Pimienta – Miss Colombia

15) Paysage d’Hiver – Im Wald

16) Special Interest – The Passion Of

17) Charli XCX – how i’m feeling now

18) Fleet Foxes – Shore

19) Pyrrhon - Abscess Time

20) The Microphones – Microphones in 2020

21) Moor Jewelry – True Opera

22) Twice – Eyes Wide Open

23) Horse Lords – The Common Task

24) Julianna Barwick – Healing is a Miracle

25) HMLTD – West of Eden

26) Squarepusher – Be Up a Hello

27) Okkyung Lee – Yeo-Neun

28) Nicolas Jaar - Telas

29) Phoebe Bridgers – Punisher

30) Joana Queiroz – Tempo Sem Tempo

31) Against All Logic – 2017-2019

32) Autechre - SIGN

33) Chloe x Halle – Ungodly Hour

34) Deerhoof – Future Teenage Cave Artists

35) HA:TFELT – 1719

36) Blu & Exile – Miles

37) Oranssi Pazuzu - Mestarin Kynsi

38) Haim – Women in Music Pt. III

39) Natalia Lafourcade – Un Canto por Mexico Vol. 1

40) Hey Colossus – Dances/Curses

41) Algiers – There is No Year

42) Einstürzende Neubauten - Alles In Allem

43) The Soft Pink Truth – Shall We Go On Sinning So That Grace May Increase?

44) Boris – NO

45) Moor Mother – Circuit City

46) Róisín Murphy - Róisín Machine

47) Black Dresses – Peaceful as Hell

48) WJSN – Neverland

49) Nicolas Jaar - Cenizas

50) Dope Body – Home Body

51) Autechre – PLUS

52) Sarah Davachi – Cantus, Descant

53) R.A.P. Ferreira – Purple Moonlight Pages

54) Bob Dylan – Rough and Rowdy Ways

55) Loona – [12:00]

56) Backxwash – God Has Nothing to Do With This Leave Him Out of It

57) Freddie Gibbs & The Alchemist - Alfredo

58) The Strokes – The New Abnormal

59) Arca – KiCk i

60) Liturgy – Origin of the Alimonies

61) Run the Jewels – RTJ4

62) Dua Lipa – Future Nostalgia

63) Nadine Shah – Kitchen Sink

64) Duma - Duma

65) Idles – Ultra Mono

66) Nídia – Não Fales Nela que a Mentes

67) Bill Callahan – Gold Record

68) BoA – Better

69) Perfume Genius – Set My Heart on Fire Immediately

70) Jeff Rosenstock – NO DREAM

71) Mac Miller - Circles

72) Matmos – The Consuming Flame: Open Exercises in Group Form

73) clipping. – Visions of Bodies Being Burned

74) Sex Swing – Type II

75) King Krule – Man Alive!

76) Sarah Davachi – Gathers

77) Anna von Hausswolff – All Thoughts Fly

78) Twice – More and More

79) Taylor Swift - evermore

80) Destroyer – Have We Met

81) Everglow - -77.78x-78.29

82) U.S. Girls – Heavy Light

83) The Avalanches – We Will Always Love You

84) Irene & Seulgi – Monster

85) Taylor Swift - Folklore

86) Sevdaliza - Shabrang

87) Tiganá Santana – Vida Código

88) Laura Marling – Song for our Daughter

89) Tkay Maidza – Last Year Was Weird Vol. 2

90) Megan Thee Stallion – Good News

91) A. G. Cook - Apple

92) Touché Amoré – Lament

93) Yves Tumor - Heaven To A Tortured Mind

94) Adrianne Lenker – Songs

95) Grimes – Miss Anthropocene

96) Kai – The 1st Mini Album

97) BTS – Map of the Soul: 7

98) Bright Eyes – Down in the Weeds, Where the World Once Was

99) Moses Sumney – grae

100) Tame Impala – The Slow Rush


Livros:

L'Arrière Pays - Yves Bonnefoy

Voyage au Bout de la Nuit - Céline

La Route des Flandres - Claude Simon

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres - Clarice Lispector

A Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector

Bom Entretenimento - Byung Chul-Han

Bérénice - Racine

V - Thomas Pynchon

L'Éducation Sentimentale - Gustave Flaubert